sexta-feira, 17 de junho de 2011

SILÊNCIO: Música para os meus ouvidos!

Já faz algum tempo, deixei de participar de celebrações na comunidade em que fazia parte, principalmente, por sentir uma grande necessidade de estar em um ambiente propício à oração, mais ainda, um ambiente que favorecesse meu encontro com Jesus, na maior das orações,
a Santa Missa.
Não sei se estou vivendo um momento mais instrospectivo, mas, será impressão minha ou realmente cada vez mais, nas nossas igrejas, o silêncio orante, tão precioso e indispensável está perdendo seu lugar?
A sensação que me dá, é que o silêncio no mundo, mas até em situações apropriadas, como na oração, na liturgia... incomoda! Será exagero dizer que está se tornando, muitas vezes, insuportável para as pessoas conviverem com o silêncio?
Lembro-me de ter participado de algumas celebrações, em que o sacerdote fazia questão que se observasse aquele breve momento de silêncio, após a comunhão, percebia muitas vezes reinar um certo constrangimento entre a assembléia, naquele silêncio "imposto", os músicos pareciam meio contrariados por terem sido privados de cantar uma música de ação de graças...
Pensando sobre isso, me veio à mente uma situação em que se colocam duas pessoas juntas, porém, elas não se conhecem direito, não tem amizade ou qualquer intimidade, o silêncio entre elas vai se tornando pesado, e para fugir desse embaraço, começam a puxar todo tipo de assunto ... Talvez isso também aconteça em nossa relação com Deus, se não temos intimidade com Ele, o silêncio diante da sua presença  torna-se sufocante.
Creio que cada um de nós deve redescobrir o valor do silêncio e buscar entender, como diz Frei Patrício Scandini, não o silêncio em si, mas por que silenciamos. Através do silêncio estreitamos nossos laços com o Senhor, com sua ajuda nos é revelado quem realmente somos, este talvez seja o nosso receio, nem sempre nos achamos preparados para nos encararmos frente a frente, com nossos medos, desilusões, com a solidão da alma...
Porém, é tempo de mirarmos o exemplo de Jesus! Dom Eusébio Sheid escreveu em um dos seus artigos que Jesus foi o maior Mestre do silêncio:

«Durante toda a sua infância e juventude, por quase 30 anos, levou uma vida escondida em Nazaré, sobre a qual nada sabemos, a não ser que Ele era submisso à sua Mãe e ao seu pai adotivo, São José, com quem aprendeu um ofício para ganhar a vida (cf. Lc 2,41ss ; Mt 13,55).»

«Mas um silêncio de 30 anos é algo que grita, que nos interroga. Por que isso? --questiona o arcebispo--. Ninguém jamais chegou a penetrar profundamente o que significa essa vida de Nazaré. Parece que Jesus se recolheu por 30 anos, para depois pregar nos 3 anos de sua vida pública, com maior intensidade, ensinando-nos o valor da quietude, do silêncio, do recolhimento, da solidão fecunda.»

Dom Eusébio explica que esse silêncio de Jesus continua, aprofundado nos 40 dias em oração no deserto, antes de começar a vida pública.

«Depois, noites inteiras no silêncio, na contemplação das coisas eternas, como na véspera da escolha dos Apóstolos (cf. Lc 6,12-16), ou antes de se entregar à Paixão (cf. Lc 22,39-46).»

«Silêncio, também, diante de Pilatos, em face das acusações de falsas testemunhas (cf. Mt 27,13-14); e diante de Herodes, a ponto de ser escarnecido pelo tetrarca e sua guarda (cf. Lc 23,8-11)», refere o arcebispo.

«Por fim, silêncio na própria sepultura, durante os 3 dias que antecederam a gloriosa Ressurreição. Esse silêncio fala muito forte, como, aliás, o silêncio das sepulturas sempre nos fala muito.»

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Pois é, meus irmãos, tenho aprendido a amar o silêncio, a buscá-lo cada vez mais e sinto falta dele, num lugar onde ele deveria "falar mais alto", na Liturgia da Santa Missa!


“Do meu ponto de vista e experiência, a regra do silêncio deveria estar em primeiro lugar. Deus não se comunica à alma tagarela que como zangão na colméia, zumbe muito, mas não fabrica nada. A alma tagarela é vazia interiormente. (…) A alma que não saboreou a doçura do silêncio interior é um espírito inquieto e perturba o silêncio dos outros”.
(Santa Faustina)
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quinta-feira, 16 de junho de 2011

"PAI NOSSO", oração que transforma e compromete!



"A oração supõe um esforço e uma luta contra nós mesmos e contra os embustes do tentador. O combate da oração é inseparável do combate espiritual necessário para agir habitualmente segundo o Espírito de Cristo: reza-se como se vive, porque se vive como se reza"
(CIC 2752)

Rezemos, pois, com o  "COR"  "AÇÃO" , isto é, com sinceridade e verdade, vivendo o que se reza!


PAI NOSSO, QUE ESTAIS NO CÉU
Pai, ao rezar "Pai nosso", proclamo que Tu és um Deus plural, que todos e cada um, são teus filhos amados.
Ajuda-me então a vencer minha incoerência de que ao mesmo tempo que reconheço-Te como Nosso Pai, desconheço nos outros a figura de um irmão!

SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME
Não somente em nossos lábios, Pai, seja santificado o Vosso nome, em nossas atitudes, em todo nosso existir... Que todos que se acheguem a nós, possam santificar e bendizer o que já é santo, mas que por vezes é desrespeitado, o teu nome!

VENHA A NÓS O VOSSO REINO
Mais uma vez nos ensina Jesus, "venha a nós", não a mim apenas. Venha o teu reino de justiça, paz e alegria, construído a partir do amor a Ti, edificado no Cristo, consolidado pela unidade dos teus filhos.

SEJA FEITA A VOSSA VONTADE,
ASSIM NA TERRA, COMO NO CÉU
A vossa vontade é a nossa salvação, é que ninguém se perca! Que nossa vontade se molde à Vossa vontade, Pai, que saibamos também ser cooperadores, para que ela se cumpra na vida dos irmãos.

O PÃO NOSSO DE CADA DIA, NOS DAI HOJE
O pão material, o alimento, o trabalho... Mas também o espiritual, o pão da Palavra, o pão da Eucaristia.
Dá-nos "hoje" Pai, amanhã pediremos novamente, estando assim sempre em comunhão convosco.

PERDOAI-NOS AS NOSSAS OFENSAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS AOS QUE NOS TEM OFENDIDO
Pai, tua misericórdia é infinita, mas temos como condição, por sermos perdoados, com generosidade oferecer o perdão a quem nos ofendeu, mas dentro de nós bate um coração de pedra, tão diferente do Teu... dá-nos um coração de carne, que libere amor e perdão, que não só reze: "Me ajuda a perdoar", mas que igualmente dê passos concretos de perdão.

E NÃO NOS DEIXES CAIR EM TENTAÇÃO
As tentações existem e estão em toda a parte, mas pelo Espírito Santo que habita em nós, que não caiamos nelas, Pai, que pelos dons de discernimento, fortaleza, que pelo dom supremo do amor, do amor que temos a Ti, que possamos resistir fortes pela Tua graça e nossa escolha, de buscar sempre a santidade .

MAS LIVRAI-NOS DO MAL
Guarda-nos, ó Pai, daquele é homicida desde o princípio, livra-nos do laço do passarinheiro, para que livres em Teu amor e pelo Teu amor, alcancemos a constância e a perseverança até a eternidade feliz.

AMÉM!
Eis o nosso "fiat", Pai, assim seja!




"Enfim, se rezamos verdadeiramente ao "Pai Nosso" saímos do individualismo, pois o Amor que acolhemos nos liberta. O "nosso" do início da Oração do Senhor, como o "nós" dos quatro últimos pedidos, não exclui ninguém, Para que seja dito em verdade, nosss divisões e oposições devem ser superadas.
Os batizados não podem rezar ao Pai "nosso" sem levar para junto Dele todos aqueles por quem Ele entregou seu Filho bem-amado.
O amor de Deus é sem fronteiras; nossa oração também deve sê-lo..."
(CIC 2792-93)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fermento, ninguém vê!


         Por que ainda esperamos elogios    e reconhecimento das pessoas???  
Jesus Cristo compara-nos ao fermento, ou melhor,
Ele diz que somos fermento.
Por isso, envolvidos na massa,
é que somos quem Deus nos fez.
Aprendi com o padre Rafael, sacerdote Javista, que quando comemos uma torta gostosa, elogiamos sua beleza, perguntamos quem a fez e nos deliciamos com tudo e queremos saber quem a fez para parabenizá-lo.
Entretanto, nunca se vê alguém perguntar qual fermento foi usado. Pois é, fermento ninguém vê.
Portanto, se continuarmos querendo que nos vejam é possível que ainda não tenhamos compreendido
quem somos.
É hora de rever a história e entender o que Jesus nos quis dizer com isso. Caso contrário, vamos querer ser o "enfeite da torta", quando, na verdade, Cristo nos quer realizando o que é essencial: a parte do fermento, e nada mais.
(Por Ricardo Sá)

terça-feira, 14 de junho de 2011

O texto, dentro do contexto!


Amai-vos uns aos outros

"... Instrumentalizar essas palavras sagradas para justificar o contrário do que elas significam é profundamente desrespeitoso e ofensivo àquilo que os cristãos têm como muito sagrado e verdadeiro."

No Evangelho de São João encontramos uma longa passagem em que Jesus se despede de seus apóstolos, fazendo-lhes suas últimas recomendações antes de ser preso, julgado e condenado à morte na cruz. É uma espécie de testamento espiritual deixado aos discípulos, aos quais ele também chama amigos; suas palavras e seus gestos, carregados de profunda emoção e simbolismo, marcaram para sempre a vida dos discípulos e da Igreja, que nascia desse convívio de Jesus com eles. Para os cristãos de todos os tempos, essas palavras e esses gestos de Jesus são sagrados.

Jesus lavou os pés dos apóstolos e ordenou-lhes que fizessem a mesma coisa, pondo-se ao serviço do próximo com toda a humildade e dedicação: "Dei-vos o exemplo para que façais assim como eu vos fiz" (cf João 13,15). Não se trata apenas de um exemplo edificante, mas do sinal de participação no amor e amizade de Jesus. São Pedro relutou a deixar que o Mestre lhe lavasse os pés, mas Jesus lhe explicou: "Se eu não te lavar os pés, não terás parte comigo" (João, 13,6-10). Quem quiser ter parte no amor de Jesus Cristo deve amar o próximo, pondo-se ao seu serviço, como Jesus fez.

Logo em seguida, a narração continua com o mandamento novo e Jesus ordena: "Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim deveis amar-vos uns aos outros" (João 13,34-35). A novidade desse mandamento consiste na medida do amor: "Como eu vos amei". De fato, as Escrituras Sagradas já registravam uma ordem semelhante de Deus: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico 19,18). Jesus coloca um referencial novo - "como eu vos amei" -, inseparável da primeira parte da recomendação - "amai-vos uns aos outros".

No mesmo relato de despedida, na comparação da videira, Jesus explica que a capacidade de amar "como" ele amou vem da união estreita do discípulo com o Mestre. Como o ramo não é capaz de produzir fruto sem estar unido ao tronco da videira, assim também o discípulo, sem uma vinculação estreita com Jesus, não saberá amar como ele amou. E o amor de Jesus se vincula diretamente ao próprio amor de Deus: amar a Jesus Cristo é amar a Deus e ser por Deus amado (cf João 15). Nesse mesmo contexto, Jesus recomenda novamente: "Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei" (João 15,12). Portanto, "como eu vos amei" tem sua origem no próprio amor de Deus, aprendido de Cristo e tornado possível com a ajuda dele.
O papa Bento XVI reflete sobre os vários graus do amor humano na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est (Deus É Amor); na nomenclatura cristã, o amor com que Deus nos ama e com o qual devemos retribuir o amor de Deus se chama "ágape".

Jesus não excluiu ninguém do seu amor. Amou pessoas concretas, defendendo e restituindo a dignidade aos humilhados; amou os doentes, os pobres, as crianças, os homens, as mulheres. Em cada pessoa viu e amou um filho de Deus. Acolheu e perdoou os pecadores, mesmo não aprovando todos os seus comportamentos e atitudes, recomendando-lhes que não voltassem a pecar. Ensinou a amar também os inimigos e, ainda no momento extremo de seu suplício na cruz, ele próprio perdoou aos algozes: "Pai, perdoai-lhes; não sabem o que fazem". Amou com amor puro, genuíno, transparente, sem se apossar das pessoas como se fossem objetos de desejo; amou como Deus ama. Sim, amadas por Jesus, as pessoas sentiam-se amadas por Deus, dignificadas, profundamente valorizadas, restituídas à vida, felizes.

Logo após o "mandamento novo", Jesus colocou mais um parâmetro para o amor que praticou e ensinou a viver: "Não há maior amor que dar a vida pelos amigos". Ele próprio o fez: "Tendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim" (João 13,1). Seu "fim" foram prisão, tortura e injusta condenação à morte na cruz. Suportou tudo por aqueles que amava. E o fez também por toda a humanidade, para que cada ser humano pudesse sentir-se valorizado e amado por Deus: "Tanto Deus amou o mundo que lhe enviou seu Filho único para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (João, 3,16).

"Amai-vos uns aos outros" é apenas uma parte do mandamento novo de Jesus; sem a outra parte - "como eu vos amei" -, as belas palavras de Jesus ficam genéricas, ambíguas, expostas à instrumentalização subjetiva e ao deboche desrespeitoso. De fato, várias supostas maneiras de amar não são recomendadas por Jesus: amor possessivo, ciumento, irresponsável diante das consequências, anárquico, promíscuo, violento, sádico, devasso, egoísta, comprado ou vendido, contrário à natureza... Não são expressões de autêntico amor e, no mínimo, não podem pretender-se legitimadas pela recomendação de Jesus: "Amai-vos uns aos outros".

Mas é certo que fazem parte do amor vivido e ensinado por Cristo as qualidades exigentes que lhe atribui São Paulo no belo poema sobre o amor, na sua primeira Carta aos Coríntios (cf 13,4-8): "O amor é paciente, é benfazejo, não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza nem leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica feliz com a verdade. O amor desculpa tudo, tudo crê, tudo espera, suporta tudo. O amor jamais passará".

Semelhante amor está abrigado inteiramente nas palavras de Cristo:

"Amai-vos uns aos outros... Como eu vos amei". Instrumentalizar essas palavras sagradas para justificar o contrário do que elas significam é profundamente desrespeitoso e ofensivo àquilo que os cristãos têm como muito sagrado e verdadeiro.


Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, ed. de 11.06.2011

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